quarta-feira, 31 de março de 2010

Para quê confundir o que é fácil?


I

A chuva cai na grama, nas criaturinas que ali habitam. Gotas leves e aleatórias tocam as folhas verdes, fazendo-as dançar no vasto campo, que vai até a linha do horizonte.
Imagina isso, enquanto escreve, pensando em como quer um abraço. Não gosta de precisar pedir, pois ama a surpresa, a sensação do corpo esquentar de vergonha e felicidade.

A chuva cai, molhando seu corpo e sua alma. É gostoso. O espaço em branco, ou em preto, em seu peito, é o único lugar que a água não chega. Desvia. Nem ele próprio sabe como entrar ali.
Escreve mais um pouco, incerto de suas palavras. Imagina-se caindo e gritando, ainda no labirinto que sempre começa na chuva e termina no escuro.

A chuva cai, inundando suas ideias. Seus amores, seus trejeitos de personalidade, flutuando num rio calmo. Bóia junto, entendendo quase tudo. Quase tudo. Apenas uma vez, pensa novamente em seu coração.

Apenas uma.

A chuva cai e não faz diferença.

II

Vê as coisas de trás para frente. Os acontecimentos de sua vida voltando rapidamente, voltando pela faculdade, voltando pelo ano de folga, voltando pelo ensino médio, voltando para o ensino fundamental, parando no maternal.

Vê como era bobo. Rindo de jogar areia para cima. Uma menina está junto com ele, rindo tanto quanto. Lembra dela. Os anos avançam rápido agora, parando por segundos em momentos específicos, antes de continuar voando.

Corre, no ensino fundamental, sétima série, com seu primeiro beijo. Percebe o rosto escondido da mesma garota de antes, um pouco longe dele, no pátio da escola, obervando a cena. Ciúmes. Corre, ela é sua melhor amiga, ele conta tudo sobre a garota que beijou. Ciúmes. Corre, faculdade, os dois são adultos, amigos, e ele não sabe que ela nunca beijou.

Nunca beijou.

Está em seu quarto, onde havia começado a sonhar. Não há chuva, nem labirintos, nem confusões, nem um espaço em seu peito. Em seu peito, está seu coração.

- E agora - ele diz -, quem me guiará é você.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Post sobre sentimentos

Faz tempo que não posto algo simplesmente dizendo como estou...

Assim como 33675486597 de adolescentes no mundo, continuo pensando no amor. Desejando poder encontrar a pessoa que quero abraçar e proteger para sempre, etc. O meu problema é já ter encontrado tal pessoa, ou melhor, talvez encontrado não seja a palavra certa.

Ok, é sim.

Eu acredito em magia. Afinal, o que são sentimentos? O que me leva a amar tanto uma pessoa? Definitivamente não é o fato de ela gostar das mesmas bandas que eu. Também não é fato de ser linda, nem por ser engraçada, inteligente, gostar de escrever, ler e escutar música no volume máximo. Por quê então?

Não que eu esteja reclamando.

É difícil lutar contra a saudade, os céus estrelados, os textos perdidos na minha pasta de músicas, e tudo mais que me lembra dela. Mas o fato é que não quero esquecer, quero lutar, só preciso encontrar uma forma de me manter forte. Um abraço? (risos)

Tem um jogo de Play 2, chamado Shadow Of The Colossus. É o melhor jogo que já joguei, incluindo os de outros consoles. Nele, você controla um jovem, que já no início, traz o corpo inanimado de sua amada a um templo. Uma voz lhe guia, como uma entidade - ele precisa destruir 16 gigantes que habitam aquelas terras, para então rever seu amor.
Naquelas terras, vemos raramente uma águia, ou um lagarto aqui e ali. Mas você fica sozinho e solitário, contra todos os 16 monstros absurdamente grandes. Seu único companheiro é o cavalo que ajuda a percorrer os campos imensos.

Deve ser uma boa metáfora.
É a minha luta.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Fantasmas do Passado - Parte Final


Matt optou por pular todas as partes intermediárias.
Imaginou tudo como uma cena de filme em sua cabeça, uma cena bonita, com uma música que começava baixinha e ia envolvendo aos poucos. Poderia ser Starlight, da Muse. Estava em silêncio, no carro, indo ao mercado comprar besteiras para comer na caminho. Resolve ligar o som, e a música começa, baixinha, dentro do carro. Posiciona o veículo em algum lugar perto da porta do mercado e entra, enquanto a música continua no fundo. Corta. Ele está em casa fazendo as malas, a música aumenta. Corta. Ele está comprando a passagem de ônibus enquanto o vocalista declara "eu nunca vou deixar você ir, se prometer que nunca vai sumir".
Dentro do ônibus, balançando com os buracos na estrada ou com curvas muito bruscas, apenas olha para fora, para o mundo. O vocalista grita com toda sua paixão as frases "Nossas esperanças e expectativas, buracos negros e revelações". Divaga sobre esperanças e buracos negros, tentando encontrar uma ligação entre os dois. Talvez haja uma, mas não consegue explicar.
A vida é feita de momentos, pensa. A maioria dos dias do ano são esquecíveis. A maioria.
Mas naquele momento, em pé, era difícil pensar em pequenos momentos. Era difícil pensar. O diretor do filme teria feito uma saída inteligente - mostrava tudo aquilo, Matt em pé na frente de uma porta, para depois revelar que estava sem as malas. Na verdade, já tinha descarregado tudo no hotel mais cedo, até já havia ligado para Daniela avisando que estava na cidade. A única coisa em sua mão era o caderno com suas confissões adolescentes.
Agora, como o espectador, estava surpreso de estar ali naquela tarde relativamente normal.
Levanta a mão lentamente e bate três vezes na porta.
A casa era bonita, branca, mas de madeira, o que era estranho na vizinhança cheia de casas que pareciam maiores, e eram de concreto. De qualquer forma, era bonita. Bem o tipo de residência que se veria num livro, daquelas tranquilas, onde nada de ruim acontece. Ironia.
Escutou passos que pararam bem atrás da porta. A maçaneta gira, a porta abre. Por meio segundo, acredita que não deveria estar ali. Mas só por meio segundo.
- Bom dia. - diz sorrindo simpaticamente.
- Matt?
Seu sorriso é absurdamente parecido com o de anos atrás.
- É você mesmo? - ela insiste.
Antes que pudesse responder, ela se aproximou e o abraçou comportadamente, mas com força.
- Seria engraçado se eu não fosse o Matt, e você estivesse abraçando um completo estranho.
- Seria. - ela riu, distanciando-se. - Às vezes é bom arriscar.
- Às vezes. - concordou, enquanto ela retomava uma distância segura. - Mas como vão as coisas por aqui?
- Ótimas. - apenas Daniela percebeu o duplo sentido. - E hoje estou com a tarde livre, ainda bem. Essa vida de professora é corrida.
- Ao contrário da vida de escritor então. Ou pelo menos, da minha vida de escritor.
Sorriram juntos.
- Tudo bem, vai me contar tudo sobre isso quando sairmos. - ela disse.
- Agora?
- Bom, a mamãe está aqui também, quer dar "oi" pra ela antes?
Matt fez uma careta.
- Querer... - repetiu, brincalhão.
Daniela riu.
- Vem sim. - riu, convidando-o a entrar.
Olhou para o sorriso dela. Mal tinha conseguido focar em seu rosto ainda. Olhos castanhos, cabelo caindo gentilmente pelos ombros, pele morena e lábios sensuais. O filme podia acabar ali, com ele entrando na casa, a porta fechando atrás da câmera, deixando o público sem saber o que aconteceu.
Os créditos sobem, a canção cresce, e todos se perguntam se eles se beijaram assim que a porta fechou, ou se primeiro fizeram todas as formalidades, para depois sair como num segundo primeiro encontro... de qualquer forma, o romantismo na veia do espectador traria o final perfeito, à seu gosto.

Alguns ficam até o final da sessão, para escutar a música que segue as letrinhas até a última nota. Só então o filme acaba, mas o romance parece continuar lá dentro, como se a história continuasse em algum lugar.

quinta-feira, 25 de março de 2010

Fantasmas do Passado - Parte 5


Estava tentando tirar uma música da cabeça. Mesmo depois de tanto tempo com as mesmas bandas, nunca imaginou que The Cure seria sua banda preferida.
A música falava de olhar para fotos, sentir saudade daquele momento em que foram batidas, um momento que acaba no exato instante do flash. Tudo que cerca aquele milésimo estático impresso num papel pode ser muito profundo para alguém, a ponto dessa pessoa se perder em tanta nostalgia.
Para Daniela, era uma música perfeita.
Já era relativamente tarde em sua casa, sua mãe já estava dormindo, e ela já deveria estar também, mas sentia uma necessidade estranha de se manter acordada, para se manter pensando.
Começou a lembrar de uma reportagem que viu uma vez, sobre índios que para provar sua coragem precisavam escalar árvores e tirar pedaços de tocas de vespas com socos, entre outras provas absurdas. Se provasse sua valentia, ganhava o troféu, que consistia em ter uma pele grossa semelhante a dos crocodilos - o que era outra prova, já que para conseguir tal efeito, toda a pele de suas costas era cortado com uma gilete. Quando as feridas cicatrizazem, produziriam o efeito grosso das peles de um réptil.
Mas logo, lembrou de Matt.
Balançou a cabeça, lembrando de outra coisa que viu na TV, sobre uma de suas bandas preferidas, Coldplay. Era uma entrevista com o vocalista, que disse ter perdido a virgindade com 22 anos de idade. Ele falava de um jeito engraçado, a forma como contava as coisas, às vezes, parecia não estar falando de sua própria vida. Claro que estava, mas teve essa sensação ao assistí-lo divagar sobre sua adolescência conturbada.
E lembrou de Matt.
Maldita música que continua num loop infinito dentro de sua cabeça. Ao mesmo tempo que queria fugir do assunto, tinha prazer em se deixar levar por ele. Poderia caminhar até o trabalho e voltar, sequer percebendo o tamanho da viagem, enquanto sua mente se ocupava com outras coisas, deixando os pés guiarem-se automaticamente.
Queria ver filmes apenas sobre um assunto, ler um livro que falasse sempre de mesma coisa, cantar a mesma música para sempre.
Para sempre.
É uma expressão forte. Forte, impossível, boba e equivocada, mas essencialmente romântica. Balançou a cabeça de novo. Era bom ser romântica como antigamente, ainda que fosse contraditório com tudo que queria pensar. Quando tinha seus 16 anos, gostava de cair de cabeça. Sua cabeça era tão focada, tinha sempre tanta certeza do que queria, não duvidava de nada, sonhava com tudo. Onde foram parar essas ideias?, perguntava-se. Mas eram indagações inúteis, pois não levam a lugar algum.

Preparou algo para beliscar enquanto tentava assistir TV, mas o sono começou a fazê-la fechar os olhos sem perceber. Resolveu deitar, finalmente.
Era diferente estar assim com 27 anos, mas ainda não podia dizer se era melhor ou pior. Lembrou de como sua professora de artes costumava chamar um desenho feio de "diferente". Suspirou.
Estava lembrando de muitas coisas.
Mas fechou os olhos para aquele dia, ao mesmo tempo, desistindo de lutar, como geralmente fazia no final das contas. E no final das contas, não havia nada no mundo que a fizesse esquecer do quanto estava apaixonada.

terça-feira, 23 de março de 2010

Fantasmas do Passado - Parte 4


Matt saiu de seu apartamento, trancou a porta e caminhou até o elevador. A vontade de tomar uma lata de cerveja nem era grande, mas achou que sair por alguns minutos desse uma arejada na cabeça. Desceu observando seu rosto no espelho do elevador, pensando em fazer a barba quando voltasse.
Sem pressa, foi até um pequeno restaurante na esquina de sua quadra. Era final de tarde, um vento fresco um pouco forte demais incomodava as pessoas que estavam comendo nas mesas da rua e garotas de saia em geral. Entrou e saiu mais rápido que pensava, com uma latinha na mão. Que imagem deprimente, pensou, mas estava muito distante para se importar.

Em seu escritório, com a lata quase vazia num lado da mesa, olhava para a tela em branco do notebook. Escrever sobre sua imagem decadente? Não, clichê. Falar de como os amores antigos sempre voltam? Piegas. Dissertar sobre as coisas pequenas da vida? Piegas demais.
Coçou a bochecha, escutando aquele barulhinho arranhado da barba. Sem pensar muito, resolveu tomar um banho, barbear-se, ficar de cueca e voltar ali, talvez com um surto de inspiração.

Abriu a porta, saindo do banheiro seguido de uma nuvem de vapor. Um banho quente sempre lhe fazia bem. Na verdade, foi uma ducha mais relaxante que o normal, ignorando o pequeno corte no pescoço, que conseguiu ao passar a gilete rápido demais, já no primeiro movimento. Vestiu apenas uma calça. Passou pela porta do escritório, estudando de longe o arquivo sem nada escrito. Ainda não era o suficiente.

Encostado na bancada da cozinha, tentando fazer uma garrafa coca-cola aparecer em sua geladeira com a força do pensamento, uma fagulha de inspiração lhe atingiu. E não tinha nada a ver com refrigerante.

Sentou e escreveu.
Sozinho, sem camiseta, de calça jeans, num quarto escurinho quase sem móveis que chamava de escritório, deixava-se levar pela emoção do empolgante barulhinho das teclas sendo apertadas furiosamente.

**

Quanto à viagem até Dani, decidiu ir de ônibus.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Fantasmas do Passado - Parte 3


Daniela solta o telefone no gancho, deixando-o escorregar entre os dedos até cair. Morde o lábio, mania que desenvolveu ao passar dos anos.
Sempre antes de desmaiar, sente uma tontura estranha, como se sua atenção fosse desviada, em seguida, é como cair na cama com muito sono. Leva a mão à cabeça, massageando as têmporas e soltando uma risadinha nervosa.
- Mãe? - chama.
- O quê? - ela responde da cozinha.
- Preciso falar com você. - suspira.
- Sobre? - pergunta já sabendo a resposta. Aparece na porta em seguida, caminhando até a sala onde terão a tal conversa. É uma mulher na casa dos cinquenta, mas que está longe de se aquietar. Sua postura ereta não deixa dúvidas de que poderia discutir com um valentão com o dobro de sua altura e ainda sair vitoriosa.
Daniela entrou na sala segundos depois, massageando a cabeça.
- Sinceramente, achei que isso ia acontecer pelo menos uma década mais cedo. - disse para a filha enquanto sentavam no mesmo sofá, uma ao lado da outra.
- Isso é... confuso. - murmurou devagar.
- No que está pensando? - perguntou-a, após uma breve pausa.
- O garoto que eu jurava amar me ligou depois de dez anos. - fechou os olhos, rindo de leve. - Estou pensando em muitas coisas. Aquele negócio de esquecê-lo para não sofrer me parece burrice agora, apesar de tudo. Mãe, eu eu mal lembrava dele. Venho entrando e saindo de relacionamentos que duram cerca de cinco segundos cada... as alegrias da minha vida incluem ser professora, ter amigas e amigos maravilhosos, mas uma hora ou outra, estou no quarto pensando nas coisas que não aconteceram. Há alguns anos, doía, agora são apenas lembranças fracas o suficiente para me deixar na dúvida se um dia realmente existiram. Sou adulta, não devia estar pensando nisso, não devia ter que ficar na dúvida, certo?
- Errado.
- Errado?
- Sim. A vida não tem uma fórmula para seguir, que no final tudo dá certo. Quando se é adolescente, é muito fácil sonhar com as coisas erradas, não levar a vida tão a sério, por isso pedi para que fosse mais cautelosa.
- Acho que levei isso ao extremo. - quase sussurrou.
Sua mãe pensou por um momento.
- Talvez tenha sido melhor. - disse por fim.
- Melhor? Agora Matt entrou na minha vida fazendo confusão de novo, e nem sei se ele é bonito ainda. - brincou no meio do desespero. - Não consigo deixar de me arrepender de ter feito aquela força toda pra esquecê-lo, se está tudo de volta agora, exatamente como antes.
Daniela abaixou a cabeça mais uma vez, e sua mãe, tranquila, queria sorrir, mas ao mesmo tempo, não queria dar tanta confiança à ela.
- Vamos direto ao assunto. - disse inclinando-se para frente. - Você o quer de volta?
- Eu não sei. Eu acho. Agora ainda estou agitada, sabe? - diz indicando sua própria cabeça. - Mas não consigo deixar de dar graças que estou solteira. - brincou.
- Na verdade, por uma vez na minha vida,talvez eu possa ver algo como nos filmes. - falou com os olhos distantes. - Se isso durou tanto tempo, pode ser verdadeiro mesmo. - viu que estava tão empolgada com isso quanto a filha deveria estar.
- É. - Daniela não conteve o sorriso.
- Filha, você é adulta. Nesse exato momento, não tem que me perguntar coisa nenhuma. Meu único conselho é não ir com tanta sede ao pote, as coisas podem ter mudado para ele.
Daniela apoiou o queixo nas mãos, pensativa.
- Espero que não.

sábado, 20 de março de 2010

Fantasmas do Passado - Parte 2

- Oi, Dani, sou eu.
A frase flutua no silêncio, até atingir o outro lado da linha por completo. Pensou que seria um momento até triste, mas parecia agora tão lindo quanto poético. Matt tem certeza que ela também sabe quem está falando.
- "Eu" quem? - ela pergunta.
- Matt. - murmura um pouco decepcionado.
Então ele escuta uma arfada, chiados e um baque, antes da linha cair. Era realmente difícil de não sorrir, por qualquer motivo que fosse, mas ali, o reencontro que havia imaginado já era uma cena distante.
Acomodou o telefone no gancho, pensando por alguns segundos.
- Quem sou eu pra desistir agora? - falou para si mesmo, apertando o botão de rediscagem.
Chamou uma vez.
- Quem fala? - uma outra voz desconhecida atendeu furiosa.
- O quê? - Matt não entendeu. - De onde é?
- Da casa da Daniela, foi você que ligou para cá agora?
- Foi.
- O que você disse? - exigia.
- Nada, eu só falei que meu nome era Matt.
Três segundos de silêncio.
- Matt? - a voz estava carinhosa agora.
- Sim, quem está falando?
- É a mãe dela.
Definitivamente esse não era o reencontro que Matt imaginara. Sempre teve uma aversão a pais de garotas que já namorou, quase uma fobia. O que era estranho considerando que tinha 27 anos.
- O que aconteceu? - perguntou Matt.
- Ela desmaiou.
- Oh. - foi o melhor que teve a dizer.
Por um momento, perguntou-se se aquilo era bom.
- Coitadinha, quase bateu a cabeça na mesa. - murmurou a mãe dela, meio que para si mesma.
- Você parece tranquila.
- Digamos que não é tão incomum isso acontecer.
Matt sorriu. Saber disso, imaginá-la desmaiando por uma bobiça era cômico - de alguma forma distorcida.
- Ei, então, pode dizer para ela me ligar depois? - disse. - Eu tenho que falar com ela sobre algumas coisas, ah, algumas coisas dela que encontrei na minha casa antiga.
- Aquela casa ainda existe?
- Sim, como a deixamos.
Ela suspirou.
- Muito bem. Assim que ela acordar, eu digo que você ligou.
- Muito obrigada.
- Até mais, Matt.
- Até.
Chiado. Ficou imaginando se a mãe dela tinha algum conhecimento do que ele queria falar sobre. Talvez já tenha até perguntado, mas não lembra se Daniela contava essas coisas para sua mãe. Em suas lembranças, ela sempre foi tão aberta, tão verdadeira... não conseguia pensar em uma mãe tão ignorante para não perceber o estado da filha, qualquer que fosse.
Qualquer que fosse.
Evitava ao máximo pensar em respostas para a perda de contato. Tinha medo de saber. Se foi com o propósito de sofrer menos, entendível, mas por que não avisou? Se queria terminar, por que fazer do jeito mais difícil?
Suspirou.
Não era hora de pensar nessas coisas. Esperava que logo, o telefone tocasse e teria todas as respostas que quissese, por bem ou por mal. Mas naquele exato momento, sofria de um mal irrepreensível: fome.
Estava no seu apartamento, talvez seu lugar preferido no mundo. Quando o comprou, foi como comprar um tênis que encaixasse perfeitamente no pé, daqueles que não dá vontade de pisar no chão pra não estragar. Era pequeno, tinha uma sala de estar confortável, junto com a cozinha, separada por uma bancadinha, como nos filmes. E tinha dois quartos, um que usava como escritório, e o outro para dormir.
Foi até a geladeira pegar alguma coisa que pudesse preparar rapidamente no microondas. Ligou o eletrodoméstico e abriu a geladeira novamente, para beber a última cerveja. Quando adolescente, duvidava que um dia gostaria de cerveja, mas parece que magicamente, depois de certa idade, aquele gosto estranho e enjoado acaba se tornando agradável.
Encostou-se na bancada enquanto tomava goles pequenos. Estava pensativo.
Mas sua curta reflexão foi cortada pelo toque do telefone, e de alguma forma, Matt atendeu ao primeiro toque, deixando um pequeno rastro de destruição.
- Merda. - foi o que disse ao atender.
- É assim que me comprimenta depois de tanto tempo? - perguntou ela, adoravelmente.
- Ah, não é isso, é que derramei a cerveja.
- Estava bebendo?
- Isso parece muito decadente, mas eu só bebo uma lata por dia, e olhe lá.
Escutou um chiadinho no telefone, da risada contida que ela deixou escapar.
Depois de mais de uma década sem ouvir uma palavra sobre o outro, estavam ali, num reencontro desajeitado com um charme torto. É como quando se tem 15 anos e pensa em como deve ser um casamento, esperar mais dez anos sonhando com isso, até que as coisas rolam, tem o dia dos preparativos e dos ensaios, o dia do matrimônio, mas só cai a ficha de verdade quando está caminhando no tapete em direção ao altar, com duzentos olhares em cima do casal.
- Como você está? - ela quis saber.
- Estou bem, eu acho.
- Eu... - parou, respirando fundo. - Eu preciso falar com você. Pessoalmente.
- Por quê?
- Você disse que tem coisas minhas aí. - só agora percebeu como a voz dela continuava suave. Poderia dizer que ainda tinha 16 anos.
- Ah, sim.
- Isso é esquisito. - riu. - Onde podemos nos ver?
- Eu posso ir aí. Estou de "férias". Preciso sair.
- Ótimo. O que faz da vida?
- Escrevo.
- Que lindo! - exclamou, como uma adolescente. - Você gostava tanto de escrever, faz sentido.
- Acho que faz. - diz Matt, sorrindo. - E você, que faz?
- Sou professora.
- Professora? Uau. - estava realmente surpreso.
- Um aluno da oitava série disse que eu era a melhor professora do mundo uma vez. - riu.
- Aposto que era só cantada.
- Era. Depois ele me disse que as garotas da idade dela não lhe davam bola, daí tentou em mais velhas.
Matt refletiu por um momento.
- Esse é dos meus. - concluíu.
- Dos seus? - hesitou. - Namorando muito?
Por alguma razão, Matt não queria responder a pergunta, mesmo que a resposta não tivesse grandes informações.
- Na verdade, não, deve fazer o que, uns dois anos que uma garota se aproximou de mim pela última vez.
- Acho engraçado você falar "garota". É "mulher", não? Seu pedófilo.
Sorriu, finalmente se dando conta da boa conversa que estavam tendo.
- E eu acho que mentalmente, ainda tenho 16 anos.
A frase, para ele, resumia não apenas suas piadas ou seu jeito de agir. Mas deixar por isso soou como a melhor ideia.
- Eu também. - ela disse.
Sorriram ao mesmo tempo.
- Ei, eu tenho que desligar, tenho um caminhão de provas para corrigir. Depois nos falamos.
- Pode ser.
- Até mais, Matt.
- Até.
Desligou.
Agora Matt estava assustado. Só podia ser sua cabeça de criança pregando peças, pois pensou que aquela despedida simplesmente não fazia sentido sem um "eu te amo" no final.
Olhou para a cerveja no chão.
- O plano: limpar o chão, e sair para beber.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Fantasmas do Passado

Ele entra no quarto.
Os últimos meses tem sido tão conturbados que agora tudo parece tranquilo. Matt, nostálgico, dá mais um passo dentro de seu antigo quarto. Reconhece nas paredes uns pôsteres das bandas que gostava tanto e foram esquecidas junto com a casa. Assim como suas memórias, eram marcas opacas e fracas. O cheiro de poeira ali dentro lhe dá coceira no nariz, o que o faz passar por um rápido flashback, quase escutando a voz de sua mãe no corredor.
"Limpe o seu quarto!", dizia quase todos os dias.
Mas ele nunca limpava, afinal, o quarto era seu. Deixava-o escuro, charmosamente bagunçado e estilisado, bem ao gosto de sua cabeça adolescente da época. Ele caminha mais dois passos à esquerda e sente o colchão velho de sua cama, antes de sentar ali na beirada. Não é mais tão confortável como era há quinze anos.
Quando olha para frente, tem um deja vu. O pôster de uma banda chamada Paramore, bem na altura de seus olhos, na parede oposta. Seus olhos caem no lugar vazio ao seu lado.

- Gostei do seu quarto. - ela diz.
Lembra de ter ficado altamente satisfeito ao ouvir isso. Encostou a porta e sentou ao lado dela, no colchão. Sorriem de leve um para o outro. Ela estava linda, nunca havia visto uma garota que o fizesse querer chorar de tamanha beleza.
- Paramore. - ela sorri. - Você tem um pôster. - diz apontando.
- Tenho. É uma das minhas bandas preferidas. - diz. Na verdade, conhecia apenas umas quatro músicas, mas algo lhe dizia que ganharia mais pontos com ela falando isso.
-Eu só conheço algumas músicas. - diz, e Matt ri da ironia.
Tenta lembrar de como conseguiu levar aquele anjo para sua casa, sem sucesso. Parece ter algo a ver com sua mãe... ela era filha de uma amiga que veio visitá-la, e a garota veio junto.
- Você é tímido. - comenta.
- Sou, um pouco. - fala baixinho.
- Eu acho bonitinho um garoto tímido.
Não consegue conter o sorriso, seguido da cor avermelhada nas bochechas.
- Fico sem jeito quando me elogiam.
- Eu também. - ela ri.
Nessa hora, o espírito de galão de novela encarnou nele. Teve total certeza do que queria.
- Você é muito bonita. - disse. Nos filmes isso parecia funcionar.
- Ah. - corou rapidamente. - Merda.
- O quê?
Então ela o beijou.

Perdido em sua lembrança, acariciava o lugar vazio. Foi a primeira garota que beijou, também a primeira que amou. Teve vontade de chorar, ao perceber que quase não lembrava dela, uma memória tão boa, ali esquecida entre suas bandas antes favoritas.
Olhou para o resto do quarto, cada vez mais saudosista. Desejou tão forte poder voltar à essa época, que por um momento realmente acreditou ser possível tal feito. Não queria mudar nada, podia cometer os mesmo erros de novo, mas queria ter aquela época maravilhosa de volta. O amor era tão presente em seu dia-a-dia, mas foi desaparecendo até ser apenas o passado.
Quando a palavra "passado" lhe atingiu, sua expressão mudou. Levantou o colchão bruscamente, jogando muita poeira para cima. Estava ali. Um caderninho preto, grosso e cheio de orelhas - seu diário.
Pegou-o na mão, sem recordar da última vez que o fez, nem da primeira. Sem dúvida, pensou, deve ter algo a respeito daquela garota, cujo nome não lembrava. Sentou novamente, abrindo e lendo a primeira página.
Estava escrito: "Você é a única exceção."
Trancou um choro. A música que pairava em sua mente sempre que se encontrava pensando nela naquela época. Lembrou de ter dado extrema atenção a banda Paramore depois daquele dia. Ao mesmo tempo, lembrou de ter começado a escrever no diário daquele dia em diante.
Com um dedo, foi passando os olhos por sua caligrafia ansiosa.

"Devo começar isso com 'Querido diário?' Bom, não importa, acho que aqui posso me expressar como quiser certo? Hoje foi um dia muito esquisito, mas lindo. Uma amiga da minha mãe veio visitá-la depois de muito tempo, e a filha dela veio junto. Assim que a vi não pude deixar de pensar que era a garota mais linda do mundo, mesmo que parecesse besteira. Logo, a reconheci - costumávamos brincar juntos quando pequenos, no quintal atrás da casa. O sorriso dela agora, dez anos depois, era igualmente lindo. Claro que naquela época, eu não pensava nela dessa forma, mas agora tudo parece se encaixar. Quando subimos para meu quarto, senti um leve desespero me tomando. Estava sozinho com ela, depois de todo esse tempo, ela agora tão linda, eu tão... igual."

Parou um pouco. Lembrou de outra parte da conversa, antes do beijo. Sentado ao lado dela, falaram rindo sobre como tentavam fazer castelos de areia, ou sobre como tentaram cavar até o japão. Tudo parecia horrivelmente distante. Continuou lendo.

"Depois de conversarmos por quase meia hora, rindo como nunca, a conversa ficou mais séria. Ela comentou sobre o pôster da Paramore que tenho na parede, e sem saber por que, aquele meu desespero começou a voltar. Depois de me deixar totalmente sem jeito com um elogio fofo, do nada, me beijou! Simplesmente assim."

Parou de novo. Estava irritado. Seu cérebro parecia ter bloqueado tudo com uma força absurda, e agora que começava a ter essas dicas, as sensações vinham destruindo sua barreira emocional que tão cuidadosamente construiu antes de entrar. Estava com medo de continuar, com medo de continuar querendo ficar no passado.
Quem era essa garota, tão linda, tão apaixonante, cuja existência tornou-se tão misteriosa?
Pulou várias páginas, foi direto para o final do caderninho. Temeroso, leu o último parágrafo.

"Enfim, mudar de cidade não era bem o que eu queria. O pior de tudo não é nem deixar meu quarto, essas coisas materiais, por mais que me sejam importantes, não importam tanto. O que importa é ela. Deixá-la aqui, isso importa. Prometemos não perder contato, vou dar meu máximo para falar com ela todos os dias, para poder vê-la novamente um dia. Como se fosse fácil. Mas a tentativa dirá. Agora estão saindo e me chamando, estas são minhas últimas palavras aqui. Talvez um dia eu volte, e sorria dessa releitura. Espero que possa tê-la do meu lado ao fazê-lo. Adeus, querido diário."

Dessa vez, não aguentou. Desabou, de corpo e mente, em um choro. Lembrava de tudo.
Os dias passavam, os meses passavam, até que ela não respondia mais seus recados ou telefonemas. Insistiu até certo ponto, quando, irritado, desistiu, acabando por superar aquilo da pior forma possível. Foi por isso que ficou bêbado pela primeira vez. Os anos passaram, crescia, e a memória ia ficando cada vez mais distante.
Descobriu seu talento para escrever um tanto tarde, escrevia para jornais, até que lançou um livro surpreendentemente bem sucedido. Mas na hora de escrever mais um, veio o bloqueio mental, tão conhecido entre qualquer artista. Semanas passavam enquanto olhava para uma tela em branco no computador. Foi quando sua mãe disse que sua antiga casa ainda existia, e nunca fora alugada ou vendida, ainda estava lá, como a deixamos.
Parecia uma ótima ideia, mas começou a se arrepender no momento que deu o primeiro passo ali dentro. Podia formar imagens, cenas inteiras, às vezes faltando partes, de sua divertida infãncia e adolescência. Assim que a palavra 'divertida' passou por sua cabeça, lembrou de um dia que contou uma piada para a garota. Nem era uma piada tão boa, mas a risada dela, por alguma razão, soava nítida.
Riu, enxugando algumas lágrimas. Definitivamente, tinha algo para escrever sobre agora. Talvez escreva um maldito livro de auto-ajuda, pensou.
Levantou, mas antes de partir, talvez vendo algumas outras partes da casa, faltava descobrir uma coisa. Folheou o diário, procurando, até finalmente encontrar a frase que lembrava ter escrito.

"Eu te amo, Daniela."

Sorriu. Estava ali a declaração, quando a escreveu pela primeira vez. Na canto da página, o nome completo dela.

**

O dia seguinte chegou rápido.
Agora estava preparado. Comentou rapidamente com sua mãe sobre isso, ela apenas sorriu. Pegou o telefone, discou o número com código de área e DDD. Tocou uma vez, duas, três.
- Alô. - disse a voz feminina, e no mesmo momento, soube que era ela.
- Quem fala?
- Daniela.
- Oi, Dani, sou eu.

terça-feira, 16 de março de 2010

Um garoto e uma garota...

As pessoas pulam ao seu redor, mas não se empolga como elas. Seus pés permanecem cravados no chão, enquanto devaneia, querendo estar em outro lugar.

Parada com a cabeça baixa, brinca com as mãos, tocando com a ponta do dedos um triangulo que as amigas desenharam em sua mão. Seu próprio toque a leva ainda mais longe, pois aquelas duas mãos queriam estar tocando outro par distante.

É como estar no escuro.

As coisas acontecem, mas a garota não vê, sente apenas seu próprio corpo e os sentimentos ali dentro. Imagina que ele aparece em sua frente, caminhando em sua direção com aquele sorriso. Mesmo no escuro, consegue vê-lo - não apenas enxergar, mas realmente vê-lo por dentro. Foi a única pessoa com quem conseguiu compartilhar um sentimento, foi a única pessoa que lhe fazia acreditar em magia.

Tateia entre seus colares com os olhos fechados, até identificar aquele que tem significado. Aperta-o com força, marcando seu contorno na palma da mão.

Longe, o garoto acariciava a palma de sua mão imaginando o toque da garota, sem saber que, magicamente, ela podia sentí-lo.

sábado, 13 de março de 2010

Apenas uma vez

- É tudo muito relativo, não? - ela retruca.
Ele já está cansado de discutir. Tem vontade de dar-lhe um beijo apaixonado, se virar e acabar com tudo, esperando que um dia ela ligue para seus sentimentos. Mas seria apenas idiota.
- O que é relativo? - pergunta depois de uma pausa reflexiva.
- Nós. - fala como se fosse óbvio. - Todo relacionamento adolescente é assim não é?
- Não, nem todos.
- Todos são. - diz calmamente. - Você vai me esquecer eventualmente. Acontece. A vida continua.
Ele começa a acreditar. Será que o amor se baseia na conveniência, no que funciona com o momento, não no que é certo? É a emoção, nunca a razão?
- Desista. - ela diz. - Vai embora, me esquece, e pronto, sem danos.
O olhar dele levanta, furioso.
- É isso? - questiona indignado. - Tudo que sentimos era apenas isso? Eram hormônios, coisa de adolescente?
- Era... - responde, sem tanta certeza.
- Pois saiba que eu acreditei. Acreditei em cada palavra que já me disse, acreditei em todas. Quando está prestes a perder alguém, é quando vê se realmente ama essa pessoa, certo? Então é isso, você não me ama?
Ela não responde.
- Olha... - ele respira fundo, tentando se acalmar. - Eu vou sair por aquela porta e não vou voltar. Depois de tudo que passamos, o mínimo que eu queria era saber que você ia sentir saudades.
Ela desvia o olhar, mordendo os lábios.
- Você vai sentir minha falta quando eu partir?
- Vou. - sua voz quebra como vidro.
- Vai?
- Sim. - vira de costas para esconder o rosto.
Ela permanece em um silêncio estranho, confusa.
- Eu vou sentir sua falta. - sussurra. - Mas eu não queria sentir. Tenho medo de sentir.
- Não devia ter medo de algo tão bom.
- Tão bom? - retruca. - Tão bom sofrer?
- Tão bom amar.
Silêncio.
- Você me ama? - ele pergunta.
- Eu acho que sim.
- Eu te amo.
- Mas isso não importa, porque não podemos ficar juntos. Não adianta eu pensar que estaremos juntos em nossos corações, ou que estaremos juntos um dia, porque agora, não vai acontecer.
Suspiram pesadamente.
- Pra mim, importa. - ele diz, enquanto caminha em direção a porta.



Quantas vezes encontramos a pessoa certa? Apenas uma vez.